2012: CHEGAMOS MESMO AO FIM DO MUNDO?


Por Geremias do Couto


Uma rápida olhada na história da Igreja revela que ela tem sido marcada por ênfase doutrinárias distintas ao longo de sua peregrinação. Os cristãos primitivos, por exemplo, tinham em alta conta a esperança do segundo advento de Cristo e muitos nutriam essa expectativa para aqueles dias.


Até mesmo quando Paulo trata das questões do casamento, em sua primeira carta aos coríntios, pressupõe o segundo advento (e fatos conexos) como algo que os interessados em contrair matrimônio não deveriam jamais relegar ao plano secundário, mas tê-lo em devida consideração em suas decisões conjugais, 1 Co 7.29-31.


A tônica das duas cartas de Paulo aos tessalonicenses é justamente sobre o segundo advento. Ao mesmo tempo em que mantém viva a esperança, o apóstolo corrige alguns equívocos em relação a essa doutrina singular do cristianismo, posto que, para muitos, ali, parecia que este evento teria sido já consumado.


Diferente das observações feitas aos coríntios, que pareciam pôr as questões da vida material como prioridade, o propósito paulino aqui era evitar que aqueles crentes, de um lado, se perdessem na vã idéia de que o evento se consumara, e de outro, adotassem postura alienada quanto a outros aspectos importantes da vida cristã, como se nada mais restasse senão aguardar o glorioso momento, 1 Ts 3.13-18; 2 Ts 2.1-3 (ARA). Mesmo assim, na primeira carta aos tessalonicenses, na forma em que escreveu, Paulo admite a possibilidade de estar entre os vivos por ocasião do segundo advento.


O fato é que outras ênfases doutrinárias surgiram nos séculos seguintes. O período posterior à ascensão de Constantino ao trono imperial foi marcado pela discussão trinitariana. Por cerca de 100 anos o tema ocupou as lides teológicas até que ficasse bem estabelecido o dogma da Trindade.


Esses diferentes enfoques, de uma época para outra (e de um lugar para outro, com frequência), podem ser explicados à luz das peculiaridades de cada momento histórico e de outras situações motivadoras que ensejam aos cristãos apegar-se a algum valor doutrinário que interaja com as expectativas próprias de cada período.


Essa é, portanto, a forma pela qual pode ser vista a crença firmemente arraigada entre muitos cristãos primitivos de que Cristo voltaria em sua geração. Era fruto, em primeiro lugar, de estarem próximos da época em que o Mestre viveu entre os homens. Os seus ensinamentos ainda estavam bem vívidos na mente dos fiéis. A promessa de que voltaria outra vez não estava num horizonte distante. Ainda podiam ouvi-la ressoar em seus ouvidos.


Outra razão tinha a ver com as intensas perseguições experimentadas pelos cristãos. Eles alimentavam a esperança de que o aguardado encontro com o Salvador fosse o glorioso desfecho para aquele inimaginável sofrimento. Tinham como certo que o segundo advento os livraria da tormenta. Tal como os heróis do Antigo Testamento, que morreram sem ver consumada a promessa da redenção, mas nem por isso perderam a fé, assim eram os crentes primevos: a esperança da restauração de todas as coisas estava cimentada em seus corações.


Já o enfoque trinitariano, nos idos do terceiro para o quarto século, foi o resultado da progressiva sistematização da ortodoxia teológica com o propósito de conter o avanço dos ventos heréticos. Era preciso dar consistência aos ensinamentos da Igreja, que alcançara as fronteiras do império romano e entrara numa era de ampla liberdade. Em contrapartida, deixara para trás uma fé simples e centrada na esperança do segundo advento.


A questão escatológica entrou outra vez em cena com cores fortes por volta do ano 1000. A expectativa da virada do milênio, aliada a interpretações distorcidas de algumas passagens bíblicas, levou muitos a acreditarem que estava prestes o fim do mundo. A mesma ênfase repetiu-se a partir do século XIX e tornou-se mais frequente à medida que se aproximava o ano 2000. A prova disso é que as três últimas décadas do século XX foram pródigas em literatura escatológica, na legítima tentativa de se interpretarem os sinais do fim dos tempos.


Mas houve muitos equívocos. A vinda de Cristo chegou a ser marcada algumas vezes pelas seitas apocalípticas e até mesmo um pseudo-versículo encontrou eco entre os desavisados: “De mil passarás, mas a dois mil não chegarás”. Houve até quem, baseado numa interpretação esdrúxula da visão que teve Daniel dos quatro animais, construiu um acróstico, com a primeira letra em português do nome de cada um deles, para afirmar que Lula era o anticristo.


A chegada do terceiro milênio trouxe outros enfoques, como fruto do labor teológico, para responder os desafios da pós-modernidade. É necessário, todavia, que uma coisa fique bem clara: nenhuma doutrina pode ser tratada de forma isolada do contexto das demais doutrinas bíblicas sob pena de perder o seu verdadeiro foco e gerar toda sorte de distorções.


Agora mesmo, o ano de 2012 traz uma série de expectativas desse gênero, como resultado da interpretação desastrada da “profecia” dos maia de que neste ano ocorreria o fim do mundo. Há diversos movimentos, ditos cristãos, mas de natureza heterodoxa, com previsões alarmantes para os próximos meses.


O “Creciendo em Gracia”, cujo fundador, José Luís de Jesus Miranda, considera-se a encarnação do Messias e, ao mesmo tempo, o anticristo, afirma que 2012 é o ano da transformação, em que o mundo se tornará “num autêntico paraíso”, com data prevista para acontecer: 30 de junho. Já o movimento “Salvai Almas”, que se diz católico, fala de colapsos devastadores, que teriam início a partir de 23 maio, com a morte de mais da metade da população mundial antes do advento de Cristo, enquanto o Lar Lokkon Shôjo anuncia que “um tsunami irá inundar todas as cidades litorâneas do mundo… com dois terços da terra debaixo d’água” (veja aqui).


Como nos portarmos diante de “profecias” tão alarmantes, sem cair no ceticismo em relação à própria revelação bíblica, ou, por outro lado, sem nos tornarmos paranoicos em relação à própria vida?


Cabe ressaltar que o segundo advento continua sendo a maior esperança da Igreja  o ápice de sua peregrinação histórica. É o coroamento de sua marcha desde o Pentecostes como agente do Reino de Deus na Terra. Isto não significa valorizar o segundo advento acima de outras verdades das Escrituras. Quem poderá, por exemplo, ter a garantia do encontro face a face com Cristo sem que primeiro passe pelos rudimentos da doutrina da salvação?


Mas o segundo advento não pode ser tomado como instrumento de pavor e alienação. Não pode ser instrumento de opressão religiosa. Não pode ser tratado com o sensacionalismo com que muitos escatólogos o tratam. Não pode tornar-se meio para servir aos interesses comerciais da hora em que filigranas teológicas são alçadas à condição de verdade absoluta e se perde o cerne da própria mensagem: a promessa de que, com a intervenção de Cristo, a história chegará ao ápice, com a restauração de todas as coisas.


O segundo advento é, portanto, certeza de descanso e segurança, e não instrumento para impor medo e manipular os fiéis. É mensagem positiva, e não negativa. É assegurar-se de que não é necessário entrar em pânico quanto ao amanhã. É ter como certo não precisar sair atrás de sensacionalismo, da especulação escatológica, à procura de “chifre em cabeça de cavalo”, com achados absurdos que não passam de fruto da imaginação criadora das pessoas. É ter a tranquilidade de não se alienar do mundo e viver segundo a mesma perspectiva de Cristo, que disse: “Meu pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando”.


Embora Eliseu ouvisse os filhos dos profetas anunciarem que Elias logo seria arrebatado, ele não se moveu atrás, mas seguiu em sua jornada até o rio Jordão. Ao retornar pelo mesmo caminho, após a singular experiência que presenciou, os mesmos filhos dos profetas lhe disseram que procuraria nas montanhas o “espírito” de Elias. Eliseu outra vez não se moveu. Ele estava seguro em sua fé e tinha a dimensão exata do que acontecera.


Em outras palavras, quem vive sob essa perspectiva, está seguro de sua fé, não se alarma com prognósticos sombrios ou mirabolantes, mas está de “malas prontas” para encontrar-se com Cristo no dia que se chama hoje.


Se esse dia ocorrer em 2012, não terá sido por causa de nenhuma profecia de qualquer um desses aventureiros. Terá sido em cumprimento à Palavra de Deus. Se não, também não perderemos a esperança: o dia chegará, segundo o que o Pai determinou em sua própria agenda.

Geremias do Couto. Divulgação: Púlpito Cristão

Em Cristo,

Mario

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